O samba não começa na gente

Alô, povo! Para começarmos a aquecer as ideias: já imaginou que cada um de nós – você, eu e tantas outras pessoas – é a continuação de um samba ancestral? Aquele samba dos nossos pais, dos nossos avós, e de tantas pessoas que vieram antes de nós.

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Play: Nega

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"Peço ao Criador / Quero voltar na reencarnação / Sei que vou subir / Meu pensamento está na descida". (FILME, 1980)
O verso do sambista paulistano Geraldo (Filme 1927–1995), quando cantado ou bem percebido, lembra que somos a continuidade de quem veio antes. Herdamos histórias e valores que nos forjam.

Ao cantar: "Eu era menino, Mamãe disse: vamos embora / Você vai ser batizado no samba de Pirapora" (FILME, 2000), compreendo que cada pessoa carrega um batismo no samba. Geraldo Filme foi batizado em Pirapora. O meu, nos quintais da Zona Norte de São Paulo.

"E você, onde é
que o samba te batizou?
Qual foi o seu quintal?"

Desde a infância, o samba nos embala e nos ensina um modo de ser e de estar no mundo. Como lembra Nego Bispo: "Somos da circularidade: começo, meio e começo" (BISPO, 2023, p. 66). No samba, as pessoas mais velhas guardam memórias; e mais novas  recebem, recriam e as fazem seguir adiante.

É por isso que o "pedido final" (CONCEIÇÃO; SILVA, 1975), eternizado por Alcione, ecoa tão forte: se essa roda deixar de girar, nos enfraquecemos como indivíduos e como comunidade.

Muitas sociedades africanas, por suas cosmopercepções e epistemologias, nos ensinam que a vida é circular.
Nesse embalo, vale pensar como o meu, o teu e o nosso samba carregam a ideia de Ubuntu: eu sou porque nós somos. Sem perder de vista a diversidade africana, caminhamos, aqui, pelo conceito de Ubuntu a partir das leituras da diáspora.

Como diz Muniz Sodré, "o indivíduo só é humano sendo humano junto ao outro" (SODRÉ, 2021, p. 16). Impossível não fazer um samba-enredo entre Ubuntu e o samba que habita em nós.
Cada "sambança" relembrada aqui carrega ecos de Ubuntu e nos lembra que fazemos parte de algo maior: um samba que veio antes de nós e continuará depois. Como diz Muniz Sodré, toda individualidade é firmada pelo não nascido, pelo não incorporado e pelo não existente (SODRÉ, 2021).

O malandro educador pede licença para seguir seu próprio conselho: também faz o caminho de volta a si e, nessa andança, segue guiando outros reencontros.

Pertenço a uma família negra e festiva, onde o samba costura nosso quintal a tantos outros da cidade de São Paulo. Sou forjado por essas referências, que ainda hoje orientam meu pensar, agir e pesquisar como sambista e, sobretudo, como malandro educador. ".

Depoimento em Áudio

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Pense comigo: se chegamos até aqui, talvez desperte em nós a consciência da geração do meio, responsável por cuidar e compartilhar o samba de quem veio antes e de quem virá.

Como ensinou Cartola, "continuam nossas lutas, podam-se os galhos, colhem-se as frutas e outra vez se semeia" (CARTOLA, 1974). Talvez por isso as palavras de Emicida ecoem nesta caminhada: "eu não sinto que eu vim, eu sinto que eu voltei" (EMICIDA, 2020). E voltamos, toda vez que o samba nos chama, mais conscientes do que representamos e do que precisa ser cuidado, mantido e transformado.

O samba nunca foi de uma pessoa só. É por nós, com nós e para nós.

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